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Larry Loftis:“Popov era tudo o que vemos em James Bond e muito mais”

A história do espião que deu origem ao mítico agente secreto James Bond acaba de ser publicada em português. A vida do jugoslavo Dusko Popov, na qual Ian Fleming se inspirou para criar o famoso agente britânico 007, está minuciosamente retratada no livro do escritor americano Larry Loftis, que nos falou apaixonadamente deste herói.

“Na Toca do Lobo é o relato da vida agitada do espião e agente duplo Dusko Popov, entre Lisboa e o Estoril, Londres, Madrid e Washington, com histórias de enganos, aventura, perigos e sedução na II Guerra Mundial.

Como se sente por estar no exato local onde o personagem do seu livro se movimentava?

Parece surreal... Nos últimos três anos tenho investigado, visto fotos, imagens aéreas do Google Earth do Estoril, do Hotel Palácio, dos jardins e do Casino, e finalmente estar no mesmo sítio onde toda a ação decorreu, no bar onde Popov se sentava...é incrível.

Consegue imaginar o seu personagem aqui?

Sim. Eu consigo visualizá-lo a circular por aqui. Eu oiço-o. Vejo Ian Fleming a segui-lo pelo

jardim... Sei que é advogado... Tal como Popov. Ele era doutorado. E depois chegou mesmo a exercer advocacia.

A sério!?

Como vê, há uma linha muito fina a separar advogados e espiões...

Como qualifica Dusko Popov? Ele foi um traidor?

De modo nenhum. Popov era um patriota. Ele cresceu na Jugoslávia e o seu país era inicialmente neutral. Ele tornou-se agente duplo mesmo antes do seu país entrar na guerra...

Mas ele foi também um agente secreto da Abwehr alemã...

Ele pensou que a melhor coisa era estar na Alemanha, que na altura era a potência económica europeia, e historicamente o centro cultural mais influente. Popov subestimou a influência dos nazis, que em 1935 já se tinham infiltrado nas igrejas, escolas e universidades. Na universidade, tornou-se amigo de um alemão chamado Johann Jebsen. O alemão tinha o mesmo background, era uma pessoa rica, filho de armadores ricos, cuja empresa ainda hoje existe. Jebsen detestava os nazis tanto como Popov.

Dusko desprezava os nazis na Universidade?

Dusko era estrangeiro e mesmo assim criticou várias vezes Hitler e os nazis nas reuniões de estudantes. Na segunda vez em quem foi preso e interrogado... basicamente, esperava que os nazis deitassem fora a chave da cela...ou que o executassem. E isso teria mesmo acontecido se não fosse a intervenção do seu amigo Jebsen, que deu pelo seu desaparecimento e procurou indagar o que se passava. Acabou por saber que o amigo tinha sido raptado e preso de madrugada pela Gestapo. Telefonou ao pai de Dusko na Jugoslávia, este telefonou ao primeiro-ministro em Belgrado que, por sua vez, ligou a Herman Gohering , em Berlim, que acabou por o mandar libertar. De qualquer forma expulsaram-no do país em 1937. Três anos mais tarde, recebeu um telegrama do seu amigo Jebsen que lhe havia salvo a vida e que agora lhe dizia que precisava muito da sua ajuda. Marcaram um encontro num hotel de Belgrado e Jebsen abriu o jogo. Disse-lhe que não tivera outra alternativa senão alistar-se no exército alemão. Quem vivia na Alemanha e não o fizesse era considerado traidor e fuzilado. “Escolhi trabalhar para os serviços secretos navais (Abwehr). “O meu trabalho é basicamente recrutar novos espiões. E tu és o primeiro”, anunciou-lhe.

Um dilema moral...

Sim, porque a última coisa que Dusko queria fazer era ajudar os nazis. Mas perguntou ao amigo o que queria que ele fizesse. Jebsen disse-lhe que queria que ele fosse a cocktails, fizesse perguntas a certas pessoas, soubesse quem queria fazer as pazes com a Alemanha etc. Dusko aceitou, porque o amigo era antinazi e estava nas mesas circunstâncias que ele. Mas logo que Dusko recebeu a primeira tarefa de espionagem foi à embaixada britânica e contou-lhes tudo.

“Aqui estou eu!”

Sim. Basicamente ofereceu-se para agente duplo. Quero ajudar, estou ao vosso serviço. Foi recrutado. Os britânicos aceitaram-no.

Como é que este tema dos espiões para tema de um livro lhe surgiu? O que lhe chamou à atenção?

Em 2012, pensei escrever um livro sobre espionagem, mas queria que fosse um livro credível. Queria que fosse algo que as pessoas não questionassem dizendo depois que nenhum espião fizera aquilo. Comecei a pesquisar sobre espiões, grandes espiões, e fosse qual fosse o ângulo que olhasse, o nome de Popov surgia sempre. Todas as estradas levavam a Popov!

O nome de Dusko Popov é incontornável?

Descobri que este Popov fez mais na vida real do que eu seria capaz de inventar em ficção. Portanto – pensei - vou trocar. Vou escrever sobre ele. O meu agente literário, em Nova Iorque, disse-me para mudar para não ficção porque a história era muito boa. Não era preciso ficcionar nada.

Como era realmente Popov?

Ele era tudo o que vemos em James Bond e muito mais. Fleming fez uma boa escolha ao tê-lo como modelo. Era elegante, charmoso, falava cinco línguas, era sofisticado. Era um James Bond atlético. Era bom em todos os desportos: ténis, pólo aquático, tiro, e aprendeu a matar com as próprias mãos. Era tudo o que se vê no personagem ficcional. Uma vez disseram a Fleming que o seu James Bom era um playboy sempre rodeado por mulheres. Fleming contestou, dizendo que Bond tinha apenas uma namorada por livro, ou seja uma por ano. Popov tinha duas ou três namoradas ao mesmo tempo, em cada cidade onde estava. Tinha namoradas em Lisboa, em Paris, em Nova Iorque, em Madrid, e isso está registado nos ficheiros do MI5.

Popov nunca foi apanhado em ação?

É verdade, o que é espantoso. A certa altura a sua cobertura ficou comprometida. O seu “controleiro” no MI5 avisou-o de que se voltasse a Lisboa seria capturado pelos alemães que o tinham assinalado como agente duplo. Aliás, o título do livro “Na Toca do Lobo” vem de uma citação do seu comandante Ewan Montagu que trabalhava para a Inteligencia Naval britânica e fornecia a Popov o que chamavam de “chicken-feeding” (‘milho para pardais’): parecia boa informação, soava bem, mas era falsa, ou pelo menos irrelevante porque atrasada e sem utilidade. Mais do que uma vez, a secreta britânica avisou Popov de que não devia voltar a Lisboa, porque o seu disfarce tinha sido descoberto. De resto, mostro no livro documentos alemães que comprovam que, a dada altura, estes descobriram que os britânicos não podiam dizer a Popov como o sabiam porque tinham intercetado e decifrado as comunicações secretas transmitidas pela Enigma. Mas ele insistiu em voltar. Popov percebeu a sua importância no esforço de guerra, nomeadamente nas manobras dissimulação do “Dia D” e também os riscos. Disseram-lhe ‘se você voltar será torturado pelas informações e depois executado”.

E ele voltou na mesma?

Ele regressou na mesma. Por isso, Montagu disse que ele voltou a Madrid e Lisboa, vezes sem conta, mesmo depois de a sua cobertura ter ficado comprometida e que se meteu “na boca do lobo”. Popov era extremamente corajoso!

Onde fez a investigação para este livro?

A Pesquisa foi feita em múltiplas fontes. Do lado português, tive de olhar para tudo, desde registos da polícia e de hotel, de Fleming e de Popov, quando por cá estiveram. Cristina Neves da Biblioteca Municipal de Cascais ajudou-me imenso na investigação. Do lado britânico, tive acesso aos ficheiros do MI5 e aos Arquivos Nacionais do Reino Unido, que ainda recentemente estavam classificados. O difícil foi ter acesso aos ficheiros de Ian Fleming, porque estão num cofre. Demorou meses, mas lá me mandaram algumas coisas. Do lado americano fui aos arquivos nacionais para consultar os ficheiros do FBI.

O Hotel Palácio onde nos encontramos diz-lhe alguma coisa?

Por todo o lado, por onde ando no Hotel Palácio “oiço vozes”. Mostraram-me a mesa onde

Popov se sentava habitualmente no bar. Ian Fleming e Popov eram amigos?

Não eram amigos. Fleming conheceu Popov através do líder dos agentes duplos. O famoso XX (doble cross) Comite. Ian Lancaster Fleming pertencia à Divisão de Informações Navais britânica. Popov disse ao MI5 que tinha arranjado uma grande ideia para pôr os alemães a financiar o esforço de guerra britânico, enganando-os, e conseguiu finalmente convencer os dois lados a apoiarem o seu esquema de fraude piramidal, apresentado de forma diferente a cada parte.

O primeiro encontro dos dois...

Fleming andava a seguir o dinheiro. A primeira quantia que Popov conseguiu obter dos alemães através do chamado “Plano Midas” rondava os 45 mil dólares. Tratou-se de um esquema de lavagem de dinheiro que funcionou. Eles sabiam o dia em que Popov o iria receber. Nessa noite, Popov saiu do Hotel Palácio com 38 mil dólares do MI5 que não queria deixar ficar no quarto nem no cofre do hotel.

Ao sair, nessa noite, viu sentado numa cadeira Ian Fleming. Popov não sabia quem era Fleming, mas este sabia quem era Popov. O agente duplo reconheceu que se tratava de um espião, mas não sabia identificar de que país. Popov foi jantar e, ‘por acaso’, encontrou Fleming no mesmo restaurante. Foi ao casino Estoril, atravessou os jardins, e quando olhou para trás lá vinha também Fleming. Abrandou o passo, para que Fleming o ultrapassasse e fez questão de mostrar que já o tinha detetado. Dirigiu-se às mesas de bacará. O que se vê no filme Casino Royale foi realmente o que aconteceu. Havia três jogadores. Popov apostou todo o dinheiro do MI5 ao ver um certo individuo a jogar de forma desrespeitosa e barulhenta. Lançou todo o dinheiro sobre o pano, cerca de 50 mil dólares. Hoje em dia seriam meio milhão de dólares. Ele sabia que o outro jogador não iria pagar para ver.

Obviamente, este engasgou-se ao ver tanto dinheiro. Popov olhou para Fleming e diz que este estava verde. Este playboy podia ter perdido todo o dinheiro do MI5. Popov arrecadou o dinheiro da mesa e disse ao croupier: “Espero que a gerência não permita ações tão irresponsáveis no futuro. São uma vergonha e um incómodo para os verdadeiros jogadores.” Fleming recriou a cena no livro “Casino Royale”, com James Bond..

Sérgio Soares       

sergio.soares@cm-cascais.pt

C 81 - março de 2017

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