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Luís Campos e Cunha

Luís Campos e Cunha “A Art in Residence vai atrair artistas de todo o mundo a Cascais”

Nasceu em Angola, em 1954. Em 2005 foi ministro das Finanças, durante quatro meses, antes de bater com a porta, por discordar do rumo seguido. Se esta parte do seu curriculum é conhecida, a da ligação às artes plásticas é quase remetida ao foro privado. E foi sobre esta paixão e a futura instalação de uma residência para artistas em Cascais que falamos com o economista.

O Sr. Professor é sobejamente conhecido como economista, antigo Vice-governador do Banco de Portugal, ou ministro das Finanças. Pouca gente conhece o outro lado do homem ligado às artes em geral...parece esconder deliberadamente essa sua faceta?!

De facto, vou sendo conhecido como economista, embora nem faça parte da respetiva Ordem. Sou Professor de Economia na Universidade Nova. Mas nunca escondi o meu interesse pela área da cultura e, em particular, pelas artes plásticas contemporâneas. A maioria dos artistas, de uma certa geração, conhece-me bem e tenho o gosto de ser amigo de muitos.Poucas pessoas sabem que é pintor e chegou mesmo a expor em Nova Iorque. Ter sucesso na Big Apple, nesta área, não o fez desviar do caminho inicial na sua formação. Porquê? Não vá tão longe. Fui aluno de pintura durante dois anos e fui selecionado, entre muitos outros, para a exposição coletiva dos Young Artists of Columbia University. Foi uma surpresa e uma alegria. Penso que foi merecido, mas é tudo. O que o levou a estudar arte em Nova Iorque?Quando estamos a escrever uma tese de doutoramento, não é possível trabalhar todos os dias e todas as horas para esse objetivo. É necessário ter pausas e isso levou a minha atenção a assuntos que nada tinham com a economia, propositadamente. Foi uma experiência única olhar para as artes plásticas de uma forma mais educada e tentar fazer algo de novo. Outros colegas foram estudar piano, por exemplo. Mas o meu ouvido não me permite experienciar com todo esplendor a mais abstracta da arte humana: a música. Lamento mas é de nascença. Já disse noutras ocasiões que é uma pessoa tímida. Ir diretamente para Nova Iorque fazer um doutoramento sem nunca antes ter saído de Portugal, que na altura era um país fechado sobre si mesmo e conservador, não é para tímidos!?Tinha saído de Portugal, mas poucas vezes, tinha visto muito pouco e jamais tinha visitado os Estados Unidos. De facto, a minha timidez patológica (que hoje controlo bem) não me impediu de ir para a melhor escola do mundo na minha área: a economia internacional. Foi, sem dúvida, um ato de coragem ao vencer a timidez, digo-o com orgulho.

Quando estava a tirar as cadeiras de pintura e história de arte foi selecionado para os jovens artistas de Columbia University. Que tipo de pinturas apresentou?Como estudante tinha dificuldades financeiras, os materiais de pintura são muito caros e a minha Professora, a Susan Wilmarth, de quem fiquei amigo até morrer, era muito exigente com os materiais. Deste modo, um dia era suposto levar umas telas de linho devidamente engradadas. Como eram caras e não tinha dinheiro, decidi-me por comprar umas calças e um casaco de veludo numa loja de roupa em segunda mão no meio do Harlem. Estiquei-as nuns cartões e apareci com estas coisas para pintar. Contrariamente ao que eu temia, a Susan ficou muito entusiasmada e foram esses trabalhos que acabei por expor nos Young Artists of Columbia University em 1985. Se tivesse tido dinheiro para comprar umas telas decentes, provavelmente, não teria sido selecionado. A necessidade aguça o engenho!

Quais são as suas influências artísticas?

Não tenho gabarito para ter influências! Dir-lhe-ei alguns artistas que eu aprecio particularmente. Digamos que Marcel Duchamp é fundamental para toda a arte nos últimos cem anos. Depois temos Matisse pela cor, pela alegria e pelo erotismo subtil, em contraponto com Picasso, cuja genialidade nunca me tocou. Nos anos 50 temos a escola de Nova Iorque: Barnett Newman, De Kooning, Rauschenberg, Rothko ou Judd mais recentemente... Na Europa temos fundamentalmente os alemães, a sararem as feridas da guerra: Richter, Joseph Beuys ou Anselm Kiefer. No panorama português, para não ofender ninguém, refiro apenas o meu bom amigo José Pedro Croft, finalmente representante nacional na Bienal de Veneza. Notável, mas há muitos mais a referir... Temos uma nata de artistas plásticos absolutamente excecional, que será reconhecida um dia, como Lisboa o é, finalmente, pela elite europeia.

Está ligado a diversas associações, nomeadamente artísticas, como a Fundação Serralves, o Centro Cultural de Belém e preside à SEDES. O artista em si começa a sobrepor-se ao economista?

Não é tanto uma questão de sobreposição, mas de opção. Em qualquer dessas posições, servi sem qualquer retribuição pecuniária mas pelo gosto de ser útil. Estou já afastado, faz tempo, de qualquer dessas instituições que muito respeito e com quem aprendi muito e espero ter dado algum contributo.

Está também ligado a um projeto da sociedade civil para a criação de uma Residência de Artistas em Cascais. Em que ponto está esse projeto?

De facto, com mais alguns amigos e vários mecenas, estamos a lançar um projeto internacional de residências artísticas. É uma ideia antiga que se materializou em Cascais dado interesse da CMC e, em particular, do Vice-presidente Miguel Luz. Dentro de poucas semanas saberemos muito mais sobre esta organização sem fins lucrativos — AiR 351, Art in Residence— que atrairá artistas de todo o mundo, incluindo nacionais, para Cascais. É uma aposta forte que, com coragem, a CMC decidiu apoiar. Esperamos retribuir à cidade esse apoio.

Que opinião tem sobre o património arquitectónico, histórico, material e imaterial de Cascais?

Esse património é imenso e muito diverso. Na AiR 351 temos uma particular atenção em ligar esse património com as nossas atividades. Temos ideias e vamos conseguir as pessoas para levar cabo essa tarefa.Foi ministro das Finanças 4 meses, demitiu-se e acabou condecorado pelo ex-Presidente Cavaco Silva com a Grã Cruz da Ordem do Infante.

É obra ter-lhe acontecido tanta coisa em tão pouco tempo...

Não foi em pouco tempo. A minha vida teve sempre um percurso de intervenção cívica. Comecei desde muito novo. O meu primeiro artigo foi no jornal Expresso quando tinha 20 anos em finais de 1974. Desde então, com altos e baixos, não mais parei. Procurei retribuir o apoio que a sociedade portuguesa me deu para a minha formação e o meu trabalho académico. Tem sido um dever cívico e nada mais. Servir o país, mesmo quando nos demitimos ao fim de 4 meses, é dar um exemplo. 

C 88 - Agosto 2017

 

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