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Maria José Lacerda e Mello

Filha de um dos primeiros presidentes de Câmara de Cascais.

“Um dia o meu pai disse-nos que lhe tinham pedido para ir para a Câmara de Cascais”. E assim começa a conversa com Maria José Lacerda e Mello, uma ilustre cascalense filha de José Roberto Raposo Pessoa, um dos primeiros presidentes de Câmara. Mas Maria José não é só a filha do homem que durante mais tempo exerceu o cargo de edil em Cascais – de 1939 a 1959. É muito mais do que isso. Quando nos recebeu em sua casa, na Rua Nova da Alfarrobeira, que pertence à família desde 1800, Maria José conduziu-nos à sala de jantar. Em cima da mesa dispôs vários dossiês com fotos, artigos de jornal, e documentação diversa; memórias de um  tempo que conta muitos dos momentos mais significativos da história do Concelho, alguns dos quais Maria José testemunhou. A história de Maria José e da sua família cruza-se, por isso, com as histórias de um Cascais de outro tempo.
Corria o ano de 1939 e para José Roberto Raposo Pessoa, com a patente de tenente a exercer o seu posto na Cidadela da Vila, começava ali o desafio de conduzir o destino do concelho de Cascais como presidente da autarquia.


Maria José de Magalhães Pessoa Lacerda e Mello, a filha mais nova, tinha doze anos na altura. Hoje, com 85 anos, conta-nos que o pai nasceu num palacete na Rua Afonso Sanches (atual esquadra da Polícia de Segurança Pública), a 27 de março de 1899, dia de S. Roberto, pelo que ficou Roberto como segundo nome próprio. Maria José também é uma cascalense de gema que nasceu no dia 14 de julho de 1927, na Cidadela de Cascais, fortaleza onde a família residia em virtude do lugar que o pai ocupava como militar naquela unidade.
Sobre o seu pai, não consegue esconder a imensa admiração pelo homem público. “Tratava pobres e ricos da mesma forma. Nada se lhe colou aos dedos”, afirma. E, a propósito, vai contando que em certa ocasião “um sucateiro” foi lá a casa deixar um presente para o pai, um corte de fato, pensando que dessa forma faria aprovar as alterações ao projeto de sua casa que, dias antes, não lhe tinham  sido autorizadas pelo presidente da Câmara. Quando lhe contaram o que se tinha passado, o pai pediu ao senhor “Pitinha”, motorista da presidência naquela época, para ir de imediato devolver o presente.


Nalgumas ocasiões, como Zezinha, se recorda, o seu pai chegou mesmo a ter que indicar o caminho de saída do Gabinete a pessoas com certo estatuto social que iam ter com ele para pedir favores que a sua consciência se recusava a conceder. Até mesmo com a família era rigoroso, como explica: “não permitia que eu e a minha irmã puséssemos o pé no carro oficial”, tendo mesmo chegado a dizer-lhes que “o carro da presidência, não era o carro da família do presidente”.



Onde hoje existe o Santini, Maria José conta-nos que havia um cinema ao ar livre e mesmo quando o pai não ia assistir às sessões e o camarote presidencial estava vazio, não tinham permissão para se sentarem no mesmo.


Mulher determinada, Maria José parece ter herdado a  força inconformista da bisavó paterna. Num tempo em que eram as famílias que escolhiam com quem as suas filhas tinham de casar, Maria José decidiu tomar as rédeas da sua própria vida e, contra tudo e todos, ignora as orientações da família e casa com o seu grande amor: o médico Lacerda e Mello. Apesar de este ser divorciado na altura, o que os impedia de casar pela igreja, Maria José não deixou que ninguém interferisse nas suas escolhas. O marido  exerceu sempre a sua profissão no concelho e muitos cascalenses recordam-no com saudade,  “sobretudo os pescadores”. Durante a II Guerra Mundial, altura em que tudo escasseava e a gasolina não era exceção, o marido deslocava-se até casa dos doentes de bicicleta. Quando estes não podiam pagar a consulta, deixava-lhes dinheiro debaixo da almofada para que pudessem comprar os medicamentos.


A mãe de Maria José, Clementina Ferreira Pinto Leite Magalhães Pessoa, morreu em 1941. Como a irmã mais velha já estava casada, coube a Maria José passar a acompanhar o pai nas deslocações  oficiais. “Abri muitas torneiras e liguei muitos interruptores”.


Fala-nos da inauguração do Parque Marechal Carmona, do Mercado de Cascais, do Casino Estoril, do antigo Hospital de Cascais – Condes de Castro Guimarães e mostra uma fotografia sua, ainda criança, a segurar na salva para cortar a fita na sessão inaugural (ver foto em baixo). Na inauguração do Parque Palmela, recorda-se da mensagem que o pai dirigiu ao público presente, e que nunca mais esqueceu: “Estou satisfeito porque comprei os pulmões para Cascais.” Quem tiver o privilégio de conversar com Maria José sobre Cascais vai ouvi-la dizer muitas vezes: “O meu pai adorava a sua terra”. O pai desejava passar para as gerações vindouras o que conhecia da história de Cascais, e por isso, escreveu uma crónica intitulada “Folhas soltas de cousas velhas” que os seus amigos Rotários publicaram no Jornal “A Nossa Terra”. Nesses artigos adorava, sobretudo, partilhar saberes mais práticos que tinham sido passados de geração em geração à sua família, como por exemplo o artigo que publicou sobre “Como era viajar para Lisboa na época dos seus antepassados”. O Pai faleceu no dia 3 de janeiro de 1974, mas Maria José prosseguiu com o seu sonho, adotando o mesmo título para as suas crónicas sobre a história do concelho que chegou a publicar no “Mais Cascais”.


Agora, nesta fase da sua vida, também não está disposta a deixar que seja o tempo a roubar-lhe os sonhos e, confessa, há ainda um que gostaria de concretizar: ”Não morrer, sem primeiro formar um movimento ao qual gostaria de chamar “Amar Cascais”. Este seu sonho, como esclarece, “não tem nada a ver com política”, mas sim com a vontade que sente em perpetuar memórias de uma terra que ama com a mesma intensidade com que o seu pai, José Roberto Raposo Pessoa, amou.


 C - Boletim Municipal |23 de maio de 2013
 

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